terça-feira, 10 de julho de 2012

ALBERTO ESTÁ SÓ


A dor da última separação é oculta lágrima nos rios do coração. O filho é uma saudade saciada a cada visita. As cinzas ainda cobrem as brasas apaixonadas pelo calor amor da fêmea linda sua eleita, seu amor, ferida por ele mesmo um sauro montando as mulheres que atravessam sua vida enchendo-a de felicidade e dor. Perdera-a, o silêncio é uma campina ao meio dia.
A outra, linda e meiga fornada de pão quentinho, aparecera do nada, um sorriso de gato das maravilhas, uma pele chocolate e ocupando recônditos do coração onde o amor, a indiferença e a  amizade são terra comum fendeu-se ao recebê-lo  enquanto contava ao ouvido o amor que jurava ter. Separara-se e a estrada de sal da saudade esgotara a caminhada. Só. Só estava. Navegar é ser gauche, é duro o coração dos navegantes acostumado a despedidas, entre um encontro e outro há um mar que separa. Navega só Alberto e algo o surpreende ele está gostando.
A mensagem no celular é Feliz Natal e interrompe a solidão na ironia de um reencontro com o sorriso de gato das maravilhas, ele a havia deixado quando a primeira soube e isto havia se revelado inútil, ela deixara-o assim mesmo, magoada, ferida. Agora o celular promete alvura de lençóis e o prazer de está vivo, as cinzas não se abalam com pouco vento.
Os encontros recomeçam refazendo um caminho percorrido, um encontro de peles, talvez de almas o coração de Alberto  é um  curtume de perdas e a fornada de pão quentinho aos poucos perfuma os leitos temporários dos encontros. Ela quer casar, filhos e todos os desdobramentos, ele lenitivo para o tempo estioso, nenhum futuro ocupa-lhe o pensamento. É doce viver no mar, entregue a procela da viagem.
Ironia, a eleita plena de sua sensualidade e de o quanto é donatária do coração arenoso do poeta reclama a saudade da cama rangedora, do sexo orgásmico, químico, ele desejoso de aprisionar-se ao sorriso amado se entrega ao queijo da armadilha e sonha as mandalas de felicidade, tudo vibra o ouro de suas luzes.
O coração se queda na encruzilhada, o sorriso amado e o sorriso do gato das maravilhas estão novamente em sua vida.
Gato das maravilhas tem uma crise de TPM, culpa-o da rejeição eles brigam.
Sorriso amado sente antigas dores, repudia-o.
Está só.

terça-feira, 26 de junho de 2012

DESPEJO


           Quando o corpo fez contraluz, Alberto, pela silhueta, reconheceu-o. Repele-o. Segue teu caminho, não é hora... que é isso seu Alberto, só um minutinho... tô vindo de longe... Estende a mão e senta... siô! já caminhei muito hoje, desde o João Paulo... vou ficar um pouco aqui pra descansar as pernas... A mulher me botou pra fora de casa. Ela e os filhos dela. Dooiiiss, ó o tamanho. O braço marcou a altura acima da cabeça, ele, de baixa estatura. O filho dela me disse, ó cumpadi cuidado quando tu beber, senão tu apanha, ela ficou do lado deles, me botou pra fora, minhas roupas tão no seu Raimundo, o louco aí sabe, apontou para Aires é ele é trabalhador confirmou, eu piro, mas em casa num falta nada. Alberto percebe-lhe a embriaguez amanhecida, os gestos lentos, a calma lenta do raciocínio e a vontade de falar ininterruptamente. Siô... Eu trabalho num supermercado, o louco aí sabe, num é?, é ele trabalha assentiu Aires, essas pulseirinhas, exibiu o mostruário um cano de 50mm  envolto em camurça verde, ontem aí tava cheinha, trabalhei, fiz um troco, 100 reais? perguntou Aires, 60, passei em casa deixei o dicumê, aconteceu o acontecido, minhas roupas tão no seu Raimundo, verdade, o sinhô tá duvidando, me botou pra fora de casa, minhas coisas tudo lá atrás da porta de seu Raimundo, tomara que a esposa dele não veja, ela pode botar fora. Siô... eu tava pensando dá pra eu trazer elas pra cá, não, é aqui não é lugar, olhe siô, tô com vontade de ligar pra ela, liga, te empresto meu telefone, tu sabe logo e aproveita dá logo um trago pra te acalmar, riu Aires , não, não vou ligar.
                À tarde com as pulseiras no mostruário, de voz pastosa, vagava na Praia Grande.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O VINHO DA DISCÓRDIA




                A noite fora boa. 9 litros de vinho tinto seco chileno. Queijo de cuia. Uma galera animada pra beber. Começou nos primeiros sons do meião, tocou o Tambor da Lua, ZéMaria, Omar, Saci e o vinho pegado. Uma sessão de diamba acompanhou a alegria. Fim de noite.  O público d’A Vida é Uma Festa se dispersa. Os mais resistentes renitentes amanhecem numa conversa entrecortada de risos, bebida, música e sol.
                - E aí vai dormir?
                - Não, vou pegar uma na Lulu.
                - Vou em casa.
                Despediram-se. Antes Felinto chamou Aires: Vou deixar essas 2 garrafas que sobraram, mais tarde a gente bebe, guarda pra mim.
                Lentamente o sol sobe o arco do tempo enquanto espalha sua generosa energia, o dia é agora uma chapa aquecida e uns e outros acordam ressacados, sedentos, cheios de álcool no corpo, cabeça zonza, estômago revolto entre faminto e enjoado.
                - Quer se sentir bem? Vamos tomar uma gelada o Irmão.
                É quase instantâneo o fim do mal estar e o reinício da fluidez etílica, foi-se a dor de cabeça, estômago, mau humor.
                Xexéu vasculhando o casarão encontrou as duas garrafas, Faísca jogava xadrez com Hena e outros se acumulavam na torcida e na música.
                -Olha o que eu encontrei!!
                -Viiinho. Abre logo. Faísca exultara, lembrava-se do sabor agradável do líquido e naquele momento era tudo.
                A rolha foi sacada rapidamente e os copos parcimoniosamente enchidos. Tempo passa. Jogo bom. Conversa boa. Vinho bom. Vinho acaba.
                - Traz o outro Xexéu.
                Logo o líquido vermelho entornava os copos. A noite se aproxima.
                Felinto acordou. Nem os fatos da noite anterior se lembrava com exatidão. Mas as duas garrafas guardadas vieram-lhe à memória como um primeiro pensamento. Enquanto escovava os dentes, penteava os cabelos e ouvia as advertências da mulher descontente com as noites fora de casa do marido, quase que sentia o sabor acre do vinho e a cura que ele faria daquele completo mal estar. Ensaiou um cafezinho e desceu rumo a Praia Grande, o suor pegajoso da ressaca e uma certa dor no coração, que o médico teimava em dizer que não doía, mas que dói, dói e muito, se essa porra parar, parou. Nada que um bom vinho não resolva. Antecipava o prazer.
                Quando dobrou o beco já viu a algazarra em torno do tabuleiro, todos em festiva bebedeira, tocando, cantando, conversando, trocando umas ideias, sua alegria foi ao máximo, além do vinho a rapaziada: tudo de bom. Percebeu o litro seco.
                - Cadê o meu vinho. Vamos tomar.
                - Já tomamos. Faísca com o olhar e a língua bêbada ria diante do acontecido.
                Felinto demorou alguns segundos enquanto caía a ficha, a medida que percebia a real situação aumentava a frustração, o coração acelerou-se injetado de adrenalina, a raiva tomou-lhe conta da cabeça e explode:
                Eu te mato Faísca.
                O grupo cai na risada.

sexta-feira, 23 de março de 2012

BERNARDO SAI PARA CURTIR



                Meu pai era delegado, disciplinador, pensa doido, eu pronto pra ir pra festa, banhado, cheiroso ele dizia, antes junta aquela terra e bota pra dentro, pegava o carrinho de mão e ia botar a terra toda, a moçada toda lá fora, e aí, vai ou não vai, e eu lá todo suado, é doido, é assim. Pedi uma vez dinheiro pra minha mãe ela me disse, vou comprar umas coisas pra tu vender suquinho, comprou as coisas me ensinou, só uma vez, não precisou mais, como fazer, botou no congelador, me deu uma caixa de isopor, sabe ali no Luis Viana, lá que eu vendia. Nunca mais pedi dinheiro, eu que me virava. Toma um copo aí. Eu gosto é de curtir, assar uma carne, uma breja, sair com umas gatas, fumar um gererê. Acha mesmo que vou me matar, trabalhar, vou na repartição, bato o ponto faço aquele agá, pronto. Bebe um copo aí cumpade, num quer mesmo. Toma, uma gelada antes do almoço faz a gente ficar pensando melhor, até agora só bebi seis. Eh Irmão! Traz mais uma, gelaaada, ladrão. Gostava de lutar Karatê, por isso olha sou forte, disputei JEMS, coisa boa, agora não, só curto. Olha aí, sabe quem quer comprar, é cartucho de impressora, ali na repartição tava de bobeira, tá novinha, trinta reais, só pra eu curtir mais. Tô a fim de fumar umzinho, tenho uma aqui lá do Sá Viana, dum chegado meu. O Alberto, de vez em quando jogo um xadrez com ele, eu ganho, fica puto, rá, fica puto, ele ganha também, tô fazendo um chek up, fígado, pressão, rim, tudo meio assim, coração tá com problema, num tô nem aí, deixa o bicho pegar. Só um copo aí. Quando num tô aqui tô na Vicente Fialho, tem um boteco lá, tenho conta, fim do mês é só pagando, saio com a gata, comer uma pizza, um vinho. Tá zangada comigo. Mulher, sabe como é, pega no pé. Chego em casa compro uma carne, fazer um churrasco, meia dúzia bem gelada no congelador, uma  vodkca, limão, caipirinha, ora, detonei tudo.Depois dormi. Ficou puta. Queria sair, diz que shopping, só gastar dinheiro. Dinheiro dela. Ganha bem. Agora mesmo ainda vou acolá pegar um trampo, um negócio, vou de moto. Se eu vou cair, estória. já caí. rebentei tudo, boca, maxilar, olho roxo, engessei o braço, outra vez o cara me trancou, ônibus, fechei o guidom, capotei por cima, arranhei todo, é doido , o processo é lento e o bagulho é doido. Vou tomar mais uma aqui no Irmão, esperar o sol esfriar, não vai beber mesmo, já vai, tá certo, vou curtir um pouco mais, se eu não tenho medo de morrer, nasci de sete meses, sou apressado, vim apressado, tô é curtindo.

terça-feira, 20 de março de 2012

ESPIRITUALIDADE




A verdade é a vida que temos
com
suas clarezas
e
obscuridades
com
seus diálogos
e
monólogos
cujo sabedor íntimo
sou eu