segunda-feira, 16 de maio de 2011

OCASO


O paralelepípedo
sob a luz amarela no poste
que imita o colonial
não tem para mim
a mesma cor que
ao meio-dia inclemente.

Sei que continua paralelepípedo
pela sua natureza de pedra
pela sua dureza de rocha.

CAFÉ DO TEMPO (inédito)

sábado, 14 de maio de 2011

LOIRAS


Final de tarde, sobre a ponte do Rio Anil, trânsito lento, freio, embreagem, carro em primeirassegunda, a vejo, meditativa, mão no queixo, olhar distante, longe, pergunto-me, será se ela me vê, vejo-a através do retrovisor, cauteloso, sabedor que devasso uma intimidade, verifico se distingo o rosto do veículo da frente através do retrovisor dele, o vidro traseiro espelhado me barra qualquer visão, volto a vê-la, mãos no volante, lento segue o trânsito, alheia a meu olhar, dirige, algo sutil um encantamento surge-me por ela, enlevado, o comboio quase parado de duas filas com centenas de carros permite, em oculta urbanidade, que eu a observe suave fragrância de uma paixão. Movem-se os carros. Atento dirijo. Nova parada. Volto ao retrovisor. Está ela, na maior naturalidade, com o indicador atolado no nariz, retira-o e faz a bolinha. Desfaz-se o encantamento.
Desafoga o trânsito, sigo meu caminho, na Camboa os carros tornam a enfileirar-se, no retrovisor vejo um carro vermelho, cor do carro dela, é ela, firmo a vista é loura, é outra, esta usa óculos e examina as unhas enquanto espera o semáforo ficar verde.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

SOBRE A INTERESSANTE CONVERSA TRAVADA NUMA DAS MESAS DE DONA BERNARDA SE O MUNDO ACABARIA MAL SE PERMANECESSE NAS MÃOS DA CABEÇA DE CAMARÃO DA BURGESIA, OU BEM, CASO O SOCIALISMO BRANCALEONE PUSESSE AS MÃOS NO PODER


Infante descobridor da indestrutibilidade da matéria,
o limite da existência vai além da militância anêmica.
Livros,aliás, como tudo o é, na imensa produção da era,
são ora diamantes, ora lixo prontos para sairem de cena.
O pesquisador diligente percorre os caminhos da descoberta,
de tudo duvidando, pois a certeza é mãe da ingorância eterna.

EM PAR , ÍMPAR

terça-feira, 10 de maio de 2011

SER POETA

Pra mim
que resolvi
as palavras montar
em versos
super fácil
ter tal sina.
Uma flor: Um amor.
Um balão: São João.
Fácil sina.
Fácil rima.

A ilusória perfeição
das quadras quadradas,
pedras de cantaria da poesia,
belas porque ruínas,
foi meu protoencontro.

"Batatinha quando nasce..."
Sina malsina.
Palavras são idéias,
idéias são palavras.
Não me bastava o
remanso dos alexandrinos,
a prisão das sextilhas.

Assim
a românticafloridaestradapalavra
desertificou-se,
sumiram as fáceis rimas,
pragacapim de minha poesia jardim:
Machado lavra palavras.

Plana meu desejo
em céu desconhecido,
de sons são as palavras.

O FRUTO DA IRA É DOCE

segunda-feira, 9 de maio de 2011

PRECURSORES


Aprendo com eles. Humanizo-me.
Tênue como a memória que teima em não vir
de um trem que nunca saltei.
Sempre me encantei com a vida.
Filosofei. Li. Cantei.

O FRUTO DA IRA É  DOCE 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

QUIXOTE

Triste figura,
marginal lunático.
Há demônios
- ?!?1?!?! -
gigantescos moinhos.

À loucura andante,
Rocinante viu,
não viu Sancho, o escudeiro.É tudo.
Dulcinéia não veria.

O cavaleiro jamais se sentiu sozinho.

EM PAR, ÍMPAR

segunda-feira, 2 de maio de 2011

ODISSEU





Percebo o tempo e sua olaria
indiferente a qualquer desejo
a qualquer existência que não a sua:
a da ampulheta que escoa.

Vou no turbilhão, ínfima canoa.
Um sonho.
Um coração. 

O FRUTO DA IRA É DOCE