segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A LÍNGUA

A língua
púrpura contingência
do meu ofício,
oferta-me madrugadas,
onde
tropeço-me em
amnésicas voltas à caverna:
abrigoobservatório.
Vejo
a imensa exaustão humana,
princípio de realidade,
adia o prazer.
Sempre há dia.
Amanhã é morte.
Vida se vive aqui.
Explodem-me cogumelos,
emoção sax afim.

EM PAR, ÍMPAR

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

ESCALDO

A vida é que se revela
na lição de cada esquina.
Na armação do encontro
os escaldos sem rima
deixam-nos desnorteados
quais os escaldos de menino
preso um pouco mais ao fundo
enquanto as ondas quebram
em meus ouvidos submersos
e os pulmões desejam o ar.
As mãos que me submetem
afrouxam a pressão
e me levantam a cabeça.
Inalo o ar que posso
no soluço afogado.
Era só brincadeira.

Os de vera, verídicos, existenciais,
só nos ensinam:
Ora em baixo.
Ora em cima.

O FRUTO DA IRA É DOCE.

domingo, 4 de dezembro de 2011

SOBRE OS CINZAS

um olhar de Wagner Alhadeff

A ilha de São Luis é cercada por um horizonte cinza.
O olhar viajando do zênite ao poente
contempla o brilho azulceleste da abóbada
misturar-se ao branco das nuvens
e adquirir um tom rosapálidocinza
até fundir-se à cerração do mar
e à visão longínqua do continente alcantarense:
Vê salcinza.

O FRUTO DA IRA É DOCE

sábado, 3 de dezembro de 2011

RELEITURA

O novo é a leitura do velho,
o novo é a desleitura do velho,
o novo é a nova visão do velho,
o novo é o velho novamente,
o novo é a leitura do velho.

O FRUTO DA IRA É DOCE

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

PEDRINHAS

Talvez o capitalismo seja
reflexo do que somos individualmente
e não o inverso.
Acredito ser verdade que
se nos mudarmos,
sa alterarmos caducas formas de ver e enfrentar a vida,
se efetivamente sairmos da barbárie,
se nossso imaginário for povoado de idéias eticamente válidas,
se ao animal
somarmos o verniz do sublime, mudaremos.
Caro Leitor
perdõe-me a inexatidão com que me exprimo,
posto que no ofício de poeta
as palavras primas, argamassa da poesia,
sujeitam-me ao sinal do signo.
Toda elevação humana é válida,
atingiremos por dentro o sistema
na bricolagem sociondividual
e assim transformados, transformar.
Há pequenas coisas a serem feitas.
Um forno em Pedrinhas,
para assar cerâmica trabalhada
por prisioneiros orientados por uma artista
que se ver obrigada a quebrar as peças manufaturadas
para reciclar o barro e manter os detentos
atentos ao descortinar do dia.
Falta forno. Falta barro.

O FRUTO DA IRA É DOCE

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

APRENDIZ

Aprendo cada dia a exaltação
o júbilo
a felicidade
do momento que vivo
eu zémaria um animal humano
detenho no meu cérebro concepções sobre nossa cultura
e sobre a materialidade da qual sou feito
que cada hora, cada dia, todos os dias
carrego-os de tensão, de harmonia
que é tensão dirigida à emoção.
Deslumbro-me com o fenômeno vida
que envolve nosso planeta
da estraosfera às cavernas abissais que minam energia no Pacífico.
Tudo contribui para a vida
e ela se espalhou pelo Planeta
adaptando-se aos diversos ambientes
numa corrente contínua de intermitentes vivos.
Seres vivos. Entre estas milhões de formas
do micro ao macro
do aquático ao aéreo
uma forma formou-se homo sapiens.
Transformou.
Dentro do embate vida destrói vida.
Alimenta-se de vida.
Nós inventamos a cultura: Um ser vivo.
Ser vivo é forçação de barra.
Mas é vivo.

O FRUTO DA IRA É DOCE

sábado, 5 de novembro de 2011

REPARTIÇÃO

Estão ocupadas.
As pessoas estão muito ocupadas.
Muitas tarefas a serem cumpridas.

Cumpre-nos assistir ao desvelo
com o qual a sapienscolméia se desenvolve
a imbricar a tessitura social
que a todos mantém.

As pessoas estão muito ocupadas.
Muitas tarefas inadiáveis.

A urbes mata a floresta
nosso primeiro lar,
onde domesticamos os animais,
manipulamos as plantas,
e nos estruturamos como espécie.

Muito ocupadas.
Estamos ocupadas...Não vê?

Colher frutas, fazer vasos,
dançar, mergulhar num rio,
contemplaro sol, a lua,
fazer sexo, procriar.

Ocupadas, estamos ocupadas... Dê licença.
Ocupadas... Passe outro dia, ainda não chegou...
Estamos ocupadas.

O FRUTO DA IRA É DOCE.